Reporter Catolico/

A verdadeira verdade que liberta

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Guardar a palavra de Jesus e se tornar discípulo traz uma questão fundamental: a prática e a vivência do amor.

A verdade de tal candidato, não corresponde à verdade de Jesus, pois está mais ligada a uma falsa verdade que produz morte. (iStock AFP)

Por Felipe Magalhães Francisco*

Jesus, na iminência de ser injustamente condenado à morte, foi interrogado por Pilatos, que questionou: “O que é [a] verdade?” (Jo 18,38). O curioso na narrativa é que Pilatos não espera pela resposta, pois imediatamente sai ao encontro dos judeus que haviam entregado Jesus. A pergunta de Pilatos nasce de uma anterior afirmação de Jesus, de que viera ao mundo para dar testemunho da verdade e que os que são da verdade reconhecem a sua voz. Pilatos, bem como os chefes dos judeus que haviam entregado Jesus, não reconhecem sua voz e, nesse caso, desconhecem a verdade.

Enquanto Pilatos leva a questão para o plano filosófico, Jesus fala de uma realidade existencial. A verdade de sua vida está radicada na sua própria relação íntima com o Pai, o qual é manifestado nas palavras e obras desse Jesus, o Filho de Deus feito homem. Não é à-toa que Jesus, em seu interrogatório-julgamento, porta-se mais como juiz que como réu, segundo a narrativa do evangelista João: se aqueles que entregaram Jesus para ser condenado, bem como aqueles que injustamente o condenam, não reconhecem sua voz, é porque não compreenderam a verdade que ele traz. E, para o Evangelho de João, conhecer a Jesus implica crer nele, pois ele vem de Deus.

Intimamente ligada a essa questão do conhecimento da verdade e da fé em Jesus, está a fala deste a respeito de que, conhecendo a verdade, experimenta-se a libertação (cf. Jo 8,32). Na atual disputa eleitoral, em plano nacional, uma das candidaturas adotou tal fala de Jesus – “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” – como lema de campanha. Trata-se, não nos furtamos em dizer, de um mal uso do texto bíblico, que, além de descontextualizado, induz ao erro, dado que, comprovadamente, o TSE retirou do ar várias páginas em redes sociais, que espalham fakes news, ligadas a tal candidatura.

Se observarmos o contexto da fala de Jesus, perceberemos, tão logo, que o conhecimento da verdade, de modo libertador, corresponde ao guardar a palavra d’Ele e tornar seu discípulo. Só assim o conhecimento da verdade se torna libertador. Guardar a palavra de Jesus e se tornar discípulo traz uma questão fundamental: a prática e a vivência do amor, como critério. Ora, há algum traço de amor no discurso e nas propostas de tal candidato que desvirtua o texto bíblico? Muito pelo contrário, o discurso é carregado de questões que contradizem em, tudo, o Evangelho. Essa verdade de tal candidato, não corresponde à verdade de Jesus. Ao contrário, está mais ligada a uma falsa verdade que produz morte, a mesma morte à qual Jesus foi condenado injustamente.

Os três artigos de nossa especial apontam para uma reflexão profunda e contextualizada do texto bíblico:

Tânia Mayer levanta a questão: Conhecereis a verdade e a verdade dos libertará?, na qual propõe a tema da verdade, segundo a fala de Jesus, num lugar de justa e legítima interpretação.

Daniel Couto aborda, filosoficamente, a questão da verdade, rompendo com a ideia de uma absolutização, no artigo A verdade vos libertará.

A mesma campanha presidencial usa, no tema da coligação, uma ideia exclusivista, de que Deus está acima de todos. Fabrício Veliq nos ajuda a refletir, no artigo Deus acima de todos?, o tema da universalidade de Cristo, compreendido de modo inter-religioso e demonstrando como a perspectiva da candidatura abarca uma compreensão teológica falha.

Boa leitura!

* Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com.

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