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Gays são citados em documento do Sínodo

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Os participantes do Sínodo pedem que se evite a discriminação aos homossexuais e se desenvolva uma pastoral de acolhida a essas pessoas.

Na última semana do Sínodo dos bispos sobre a juventude, participantes preparam documento final. (Reuters)

Por Mirticeli Dias de Medeiros*

O esboço do documento final do Sínodo dos bispos sobre os jovens que, esta semana, recebeu aplausos calorosos na sala de reuniões da assembleia, contempla, entre outras pautas, a acolhida aos homossexuais. O tema que, no início do encontro, causou polêmica por causa da inserção da abreviatura LGBT no documento de trabalho do sínodo - o Instrumentum Laboris -, não só foi debatido como foi inserido entre as metas da pastoral juvenil que deverão ser aplicadas em toda a Igreja. No entanto, em vez de usarem a sigla LGBT para caracterizar essas pessoas no texto conclusivo, falarão de orientação sexual para se referirem a elas.

O texto que, após aprovação, será publicado ao final do sínodo (28), pede que os gays sejam acompanhados gradualmente, isto é, que se promova a experiência com a fé, em vez de impô-la como uma mera lista de normas a serem seguidas. A proposta em relação aos homossexuais se alinha à recomendação pastoral traçada pela exortação apostólica Amoris Laetitiae, o documento conclusivo do Sínodo sobre as famílias, ocorrido entre os anos de 2014 e 2015.

“No Sínodo, a homossexualidade não esteve no centro do debate, mas a questão da sexualidade, de modo geral, sim. Não é um sínodo sobre a sexualidade, mas sobre os jovens e como eles podem ser melhor acompanhados pela Igreja”, disse o cardeal alemão Reinhard Marx em coletiva de imprensa realizada esta semana, no Vaticano.

O sínodo sobre a juventude que, há alguns meses, chegou a ser considerado irrelevante do ponto vista eclesial, se tornou um dos marcos do pontificado de Francisco e uma das manifestações concretas da sua reforma. Após o próprio papa ter incentivado o debate aberto e franco entre os participantes, no início do evento, os temas mais espinhosos vieram à tona: desde uma maior participação das mulheres nas decisões da Igreja aos escândalos de pedofilia, que são o pivô da atual crise que abala a Igreja Católica. A forma como essa assembleia, de maneira particular, tem sido conduzida, deve ser levada em consideração. O sínodo, recém-estruturado por Francisco através da constituição Episcopalis communio, promulgada no mês passado, confere aos membros a possibilidade de uma participação mais ativa e mais dinâmica em plenário. Além disso, daqui pra frente, é previsto que todas as dioceses do mundo sejam consultadas antes da convocação de um novo sínodo, de modo que também os fiéis, provenientes das mais diversas culturas, apresentem suas sugestões.

“Nestes anos, tendo-se constatado a eficácia da ação sinodal face às questões que requerem uma intervenção urgente e concorde dos pastores da Igreja, cresceu o desejo de que o Sínodo se torne ainda mais uma peculiar manifestação e uma concretização eficaz da solicitude do Episcopado por todas as Igrejas”, reiterou Francisco na constituição.

Outro fator que faz desse sínodo um evento singular, por excelência, é a constatação de que a Igreja perde cada vez mais a credibilidade entre os jovens. Após a grande quantidade de denúncias de pedofilia envolvendo sacerdotes, nos últimos anos, são os jovens aqueles que, por primeiro, pedem uma intervenção direta da Igreja na erradicação desse mal. Sendo assim, não dá mais para adiar a almejada transformação dos seminários, cujo modelo estrutural remonta o Concílio de Trento, do século XVI. Se o catolicismo pretende se comunicar com a nova geração, isso deve começar pelos sacerdotes que sustentam um frutuoso testemunho de vida. Assim como já havia sido apresentado pelo documento preparatório do sínodo, em março, é hora de fazer com que a mensagem da igreja seja mais direta e mais clara. Do contrário, o catolicismo, chamado a ser instrumento de reconstrução em uma sociedade contraditória, estará fadado a se tornar um patrimônio estático, “a instituição-museu” que, em vez de anunciar Cristo, anuncia a si mesma, como diz o Papa Francisco.

*Mirticeli Dias de Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre primordialmente o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália, sendo uma das poucas jornalistas brasileiras credenciadas como vaticanista junto à Sala de Imprensa da Santa Sé.

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