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Ser padre, à luz do mistério da cruz

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A vocação presbiteral se compreende na conformação da pessoa ao mistério da cruz do Senhor, tornando-se reflexo do olhar paterno de Deus e da solidariedade de Cristo.

O padre, à luz da cruz do Senhor, é ordenado para servir a humanidade inteira. (Foto: Gilmar Pereira)

Padre: cinco letras, para dizer o dom de uma vida ao serviço da comunidade. A vocação presbiteral, como todas as vocações, fica incompreensível fora do horizonte da gratuidade, que se torna entrega generosa, constante e até exigente no pastoreio do Povo de Deus. Portanto, as categorias de carreira ou profissão não servem para falar da vida do padre. A perspectiva é outra. Com efeito, ele é chamado a ser para os outros um reflexo do olhar paterno de Deus e da solidariedade que se revelou em Jesus Cristo, com a mesma abnegação de uma mãe que passa a vida toda ao lado do filho doente ou de um casal que sai de casa de manhã cedo para trabalhar, volta à noite e, ainda, encontra tempo para cuidar da casa e dos filhos.

No rito de ordenação presbiteral, o bispo entrega ao ordenando a patena com o pão e o cálice com o vinho e pronuncia as seguintes palavras: “Recebe a oferenda do povo para apresentá-la a Deus. Toma consciência do que fazes e põe em prática o que vais celebrar, conformando tua vida ao mistério da cruz do Senhor”. É, justamente, a partir da cruz de Cristo que se compreende a vocação presbiteral.

Conformar-se ao mistério da cruz do Senhor, para o presbítero, significa, em primeiro lugar, manter uma amizade profunda com a pessoa de Jesus Cristo. De fato, é impensável o ministério presbiteral sem o cultivo de uma espiritualidade cristocêntrica. A ordenação presbiteral não tira a pessoa da condição de discipulado. O padre continua sendo, com os outros, discípulo do único e verdadeiro Mestre e Pastor, a quem ele contempla e segue até o dom de si mesmo, sem restrições.

Da relação com o Crucificado origina-se a caridade pastoral, pela qual o ministro ordenado torna visível, na comunidade e nas várias circunstâncias hodiernas, Jesus Cristo Bom Pastor. Com certeza, a pregação da Palavra e a celebração dos Sacramentos, sobretudo da Eucaristia, são momentos privilegiados de seu pastoreio, mas não são únicos e isolados. Possuem desdobramentos práticos. De fato, o padre, conformando-se ao mistério da cruz do Senhor, torna-se sensível às inúmeras cruzes dos homens e mulheres que encontra no caminho. Põe em prática o que celebra: faz-se “cireneu” e solidariza-se com todos, a partir dos mais necessitados, de forma concreta, por meio de uma vida isenta de privilégios.

Finalmente, a vocação presbiteral, por assumir a cruz de Cristo como referencial norteador, é grávida de grande impulso missionário. O amor revelado pelo Filho de Deus na sua Páscoa não conhece barreiras. A entrega total de si mesmo na cruz possui um alcance salvífico universal. Ao ressuscitar, pois, envia seus apóstolos: “Ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16,15). O padre, à luz da cruz do Senhor, é ordenado para servir a humanidade inteira. A incardinação numa diocese não é obstáculo para uma vivência mais ampla do ministério. Com efeito, a Igreja particular, longe de ser o limite último da missão, é sempre o lugar de onde partir para um serviço maior ao Evangelho, indo, também, além-fronteiras.

Pode-se escrever muito sobre a vocação presbiteral, todavia, o mais belo compêndio é o testemunho silencioso e eficaz de quem, como verdadeiro pastor, foge das manipulações da máquina mediática, da tentação de afirmar a si mesmo e vive mergulhado na vida dura de seu rebanho. Reza pelo seu povo, sofre e alegra-se com ele, serve-o por amor.

Sabe-se que, infelizmente, ao lado do trigo cresce o joio. Crimes gravíssimos, protagonizados por alguns membros do clero, têm deturpado a beleza do ministério ordenado diante da opinião pública. Contudo, não se pode deixar de acreditar no valor da vocação presbiteral, porque, quando é vivida à luz do mistério da cruz do Senhor, fica livre da mundanidade, serve a causa do Reino de Deus, enriquece a Igreja e evangeliza o mundo.

Por Francesco Sorrentino*

 

 

*Francesco Sorrentino é mestre em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE). Presbítero missionário do Pontifício Instituto das Missões ao Exterior (PIME), na Diocese de Macapá-AP é Administrador Paroquial da Paróquia-Catedral São José e Coordenador da Pastoral Universitária.

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